
“Torna-te naquilo que és!”
Tenho dado por mim a pensar nesta frase de Nietzsche, que me transporta aos anos da adolescência ou começo da idade adulta, onde como qualquer humano padeci das incertezas do eu. Foram anos de grande sofrimento intelectual, mas ao mesmo tempo profícuos, porque orientados pela descoberta pessoal.
A idade adulta apresentou-me esta ideia de que havia uma ânsia pela estabilidade e independência económica, praticalidades que não puderam coabitar com a jornada da concepção do eu.
Sem que me apercebesse fizeram-me crer, que tinha de optar por uma ou por outra e como a jornada do eu se estava a tornar demasiado longa para a paciência da pressão social tive de a deixar partir.
Foi-se o pensamento e a inspiração. Vieram as coisas, os postos, as contas, as pessoas, os poisos e a bagagem. Estava no rumo certo. Fiz o que se me era esperado.
Retrospectivamente pergunto-me quando disto sou eu.
Ao longo da vida o ser humano vai incorporando uma multiplicidade de softwares, que representam aquilo que aprendemos e que nos levaram a acreditar que nos pertence : preciso de ser bem sucedido! Rugas são feias! Tenho de tirar os pelos das pernas! Marcas e cores da estação! Casamento (com a pessoa certa)! Filhos (aos 30)! Carreira! Sorriso! Usar o S! Pagar a conta da água! Etiqueta e códigos de conduta !Cão labrador! Usar fato para uma reunião de trabalho)! E cuecas, mas rendadas porque as de algodão são foleiras e desinteressantes.
Perante esta pluralidade não será de estranhar que o individuo fique perdido neste maranha de coisas ensinadas, que entram em conflito umas com as outras em determinadas alturas da vida.
Há sempre desculpas para não nos transformarmos naquilo que somos: Se no passado tivemos que priorizar a subsistência hoje o ethos está na globalização e na multimédia. A efemeridade e ritmo impedem-nos de nos tornarmos conscientes do facto de que vivemos uma vida emprestada.
E quando nos perguntam quem somos não sabemos, por isso, respondemos que somos advogados ou carpinteiros, que somos casados e de Leira, que somos sociáveis e que não gostamos de pessoas com calças amarrotadas no traseiro.
É como se vivessemos com dois seres ao mesmo tempo: o nós e o eu. O primeiro domina o segundo; o segundo deixa-se manipular pelo primeiro.
Para vos dar um exemplo, a semana passada fui a uma formação e o facilitador dava-nos conta que passou a maior parte da vida com uma relutância em relação aos franceses. Um dia resolvera questionar-se da origem deste sentimento e concluiu, que na verdade, não era ele quem não gostava de franceses. O Khaz não tinha qualquer ideia sobre os franceses, porque nunca conhecera nenhum e mesmo que o tivesse e a coisa corresse mal seria injusto tomar um encontro por toda uma nação. Depois pensou que a mãe era Inglesa e o pai argelino, e como tal, por razões históricas de conflitos entre estes países, o Khaz passara toda uma vida bombardeado por estereótipos em relação a França. Hoje sabe que não tem problemas com os franceses simplesmente fora ensinado a não gostar deles.
Personalidade deriva etimologicamente do grego persona que significa máscara social. E todos pomos uma no palco social, o problema acrescento, é que trazemo-la para casa connosco e esquecemo-nos de nos procurar, de sermos quem somos e provavelmente passaremos toda uma vida a executar os passos e a recitar as passagens da persona que nos ensinaram lá no sítio donde viemos .
A coisa está tão bem feita, que provavelmente criaremos personalidades nos novos com que nos cruzemos e incutir-lhe-emos esta ideia de que O EU é uma história que se conta aos meninos pequeninos à semelhança do pai Natal.
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